A retração gengival é uma das condições periodontais mais frequentes entre pacientes adultos. Além disso, ela se caracteriza pelo deslocamento apical da margem gengival. Isso expõe parte da raiz do dente, gera sensibilidade e compromete a estética do sorriso. Quando progressiva, também coloca em risco a estabilidade do dente a longo prazo.
A presença de retração gengival não é, por si só, uma contraindicação à ortodontia. O caso exige, porém, avaliação periodontal criteriosa antes do início do tratamento. Além disso, requer planejamento cuidadoso dos movimentos dentários e acompanhamento rigoroso ao longo de todo o processo.
O que causa retração gengival e por que ela é relevante na ortodontia
A retração gengival pode ter origem em escovação traumática, doença periodontal ou biotipo gengival fino. Em muitos casos, há combinação entre esses fatores. O posicionamento dentário fora do osso alveolar também contribui para o quadro.
Na avaliação ortodôntica, a retração tem relevância biomecânica direta. O movimento dentário depende da integridade dos tecidos de suporte. Mover um dente com suporte periodontal reduzido, sem controle adequado, pode agravar a retração existente. No entanto, em casos mais severos, pode resultar em perda óssea adicional.

Por outro lado, há situações em que a correção ortodôntica do posicionamento dentário contribui para estabilizar o ambiente periodontal. Isso, porém, depende de planejamento feito com base no diagnóstico correto.
Avaliação periodontal como etapa obrigatória
A avaliação periodontal completa é indispensável antes de qualquer movimentação dentária em pacientes com retração gengival. Essa avaliação considera:
Biotipo gengival: pacientes com biotipo fino e tecido queratinizado reduzido têm maior susceptibilidade ao agravamento da retração durante a movimentação dentária. Esse fator influencia o planejamento diretamente e, em alguns casos, indica a necessidade de enxerto gengival antes do início da ortodontia.
Profundidade de sondagem e nível de inserção clínica: esses parâmetros identificam se há doença periodontal ativa associada à retração. Periodontite ativa é uma contraindicação relativa ao tratamento ortodôntico. O controle inflamatório precisa ser estabelecido antes da movimentação.
Quantidade de gengiva queratinizada: a faixa de tecido queratinizado ao redor do dente funciona como barreira protetora. Quando essa faixa está reduzida, o risco de progressão da retração durante o tratamento aumenta.
Espessura do osso alveolar: a tomografia cone-beam é indicada quando o planejamento envolve movimentos de inclinação ou projeção dos incisivos. Ela permite avaliar os limites do tecido ósseo de suporte com precisão.
Quando o enxerto gengival é indicado antes da ortodontia
O ortodontista e o periodontista definem juntos o momento do enxerto gengival. Eles baseiam essa decisão nas características específicas de cada caso. De forma geral, o enxerto prévio à ortodontia entra no planejamento quando:
- Há biotipo gengival fino com faixa de tecido queratinizado insuficiente para a movimentação planejada
- O movimento previsto leva o dente em direção ao limite ou além da cortical óssea
- A retração existente é clinicamente significativa e o risco de progressão durante a ortodontia é alto
Em outros casos, o enxerto ocorre após a ortodontia. Nesse momento, os dentes já atingiram a posição final planejada. Isso permite que o periodontista atue em um ambiente estável, com resultado mais previsível.
Há ainda situações em que o acompanhamento periodontal durante o tratamento é suficiente. Isso ocorre quando o planejamento ortodôntico respeita os limites do tecido de suporte. Nesse caso, a intervenção cirúrgica não é necessária.

Como o planejamento ortodôntico é adaptado nesses casos
Em pacientes com retração gengival, o planejamento precisa ser mais conservador em determinados parâmetros:
Direção e amplitude dos movimentos: a proinclinação excessiva dos incisivos aumenta o risco de agravamento da retração. O planejamento digital permite simular esses movimentos e definir seus limites com antecedência.
Forças ortodônticas: em pacientes com suporte periodontal reduzido, forças leves e contínuas produzem resultados mais seguros. Forças excessivas comprometem o tecido de suporte e aceleram a progressão da retração.
Tipo de aparelho: aparelho fixo e alinhadores transparentes têm indicação nesses casos. A escolha depende do diagnóstico global. Os alinhadores facilitam a higiene, fator especialmente relevante em pacientes com histórico periodontal.
Ancoragem e biomecânica: quando a retração se concentra em dentes com movimentos específicos, o ortodontista adapta a biomecânica do tratamento. O objetivo é reduzir o estresse periodontal nessa região.

Acompanhamento periodontal durante o tratamento ortodôntico
O acompanhamento não termina com a avaliação inicial. Em pacientes com retração gengival, o monitoramento periódico dos tecidos de suporte é parte essencial do protocolo. Aliás, esse acompanhamento inclui:
- Avaliação regular da margem gengival e do nível de inserção, para identificar precocemente qualquer progressão da retração
- Controle de higiene bucal, com atenção às áreas de maior susceptibilidade
- Comunicação contínua entre ortodontista e periodontista, especialmente quando há alterações que exijam ajuste do planejamento
A integração entre as duas especialidades ao longo do tratamento — e não apenas no início — é o que permite intervir antes de uma progressão comprometer o resultado final.
Retração gengival e estabilidade pós-tratamento
A contenção ortodôntica tem papel relevante nesses casos. Após a finalização do tratamento, os dentes devem permanecer na posição corrigida. Dessa forma, os tecidos de suporte têm tempo para se adaptar e estabilizar.
A recidiva do posicionamento dentário pode recriar as condições que favoreceram a retração original. Por isso, o protocolo de contenção deve ser rigoroso e, em alguns casos, de longa duração.
Além disso, quando há indicação de enxerto gengival após a ortodontia, o periodontista aguarda a estabilização da contenção. Assim, a movimentação residual não compromete o resultado do enxerto.

Perguntas frequentes sobre ortodontia e retração gengival
Retração gengival impede o tratamento ortodôntico?
Não necessariamente. A retração gengival exige avaliação periodontal prévia e planejamento cuidadoso, mas não é uma contraindicação absoluta. A viabilidade do tratamento depende da extensão da retração, da condição periodontal geral e do planejamento dos movimentos dentários.
É preciso fazer enxerto gengival antes de colocar aparelho?
Depende do caso. Em alguns pacientes, o enxerto antecede o início da ortodontia. Em outros, o periodontista realiza o procedimento após o tratamento, quando os dentes já estão na posição final. O ortodontista e o periodontista tomam essa decisão juntos.
O aparelho pode piorar a retração gengival?
Se o planejamento não considera o suporte periodontal adequadamente, movimentos dentários inadequados podem agravar a retração. Por isso, a avaliação periodontal antes do tratamento e o acompanhamento durante ele são fundamentais.
Alinhadores transparentes são mais indicados para quem tem retração gengival?
Não existe uma regra absoluta. Os alinhadores facilitam a higiene, o que é relevante em pacientes com histórico periodontal. No entanto, a indicação do tipo de aparelho depende do diagnóstico global do caso.
Conclusão
Em resumo, o tratamento ortodôntico em pacientes com retração gengival é viável. Mas exige, porém, uma abordagem que vai além do alinhamento dentário. A avaliação periodontal prévia, o planejamento integrado com o periodontista e a adaptação da biomecânica ortodôntica definem a segurança e a qualidade do resultado. Além disso, o acompanhamento rigoroso durante o tratamento é parte essencial do protocolo.
Afinal, quando o ortodontista conduz o caso com esse nível de atenção, o tratamento não contribui somente para a estética e a função. Contribui, sobretudo, para a preservação dos tecidos de suporte a longo prazo.
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Escrito por Dra. Samanta Nigro CRO-PR 12242
Ortodontista Invisalign® Top Doctor Diamond, certificada pelo curso Invisalign by Instituto Maio e Fellowship em Alinhadores, é graduada em Odontologia pela PUC_PR (1999), especialista em Ortodontia e Ortopedia Facial pela PUC-PR, especialista em Odontopediatria pela Associação Brasileira de Odontologia-PR e membro da Sociedade Paranaense de Ortodontia.
Fontes
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